Refletir sobre o papel das instituições de ensino e pesquisa como produtoras de ciência, bem como acerca das novas formas de acesso à informação e ao conhecimento são desafios cruciais para quem se dedica a promover o diálogo entre a academia e a sociedade nas universidades do século XXI. A pandemia de Covid-19 evidenciou ainda mais a importância da ciência não apenas para o cidadão, mas também como campo de disputas narrativas, marcado pela produção de múltiplos sentidos e representações simbólicas.

Diante deste cenário em rápida e constante transformação, torna-se essencial fortalecer a atuação dos centros de pesquisa e universidades como interlocutores com a opinião pública. Mais do que nunca, é preciso construir novas possibilidades dialógicas, a partir do reconhecimento da sociedade como coautora do processo de criação e produção científica – superando uma visão já ultrapassada, que a situa como consumidora meramente passiva. Em tempos de negacionismos, ameaças à educação pública e discursos anticientíficos, é fundamental que a sociedade não apenas (re)conheça a importância da ciência em sua vida, mas também seja capaz de defender a universidade, valorizando-a como seu patrimônio por direito.

Mas como aproximar o público e a academia? Como estabelecer um canal para que as pessoas, o conhecimento científico e seus diversos produtores se relacionem de forma direta, aberta à pluralidade de vozes?

Para fazer frente a esse desafio, a Diretoria de Comunicação Social da Uerj (Comuns) lançou, em 30 de abril de 2024, a Rede Mirabilis, fruto do projeto Faperj “Modernização da Infraestrutura Física e Tecnológica da Diretoria de Comunicação Social da Uerj: um hub inovador para uma rede multidisciplinar de comunicação e circulação científica”, com a participação de bolsistas do Programa de Apoio Técnico às Atividades de Ensino, Pesquisa e Extensão (Proatec-Uerj), do Programa de Incentivo às Atividades Técnico-Administrativas (Protec-Uerj) e de Estágio Interno Complementar (EIC-Uerj).

Baseada em uma nova abordagem de comunicação, pautada pelos princípios da transversalidade do conhecimento, da circularidade da informação e do trabalho colaborativo em rede, dentro e fora da Uerj, a Mirabilis nasce como uma rede multidisciplinar de comunicação e circulação científica. Sua proposta é facilitar o debate e a difusão de novos formatos e suportes multimidiáticos voltados à criação e divulgação de conteúdos de ciência para e com a população fluminense e brasileira. Inclusive com o propósito de evidenciar, para a opinião pública, a importância do investimento em educação, tecnologia, inovação e cultura no Estado do Rio de Janeiro.

A essência da Mirabilis é a atuação em rede, pressupondo elos não apenas entre seus integrantes, mas entre as diversas redes que se entrecruzam na sociedade. Como “hub de inovação”, expressão emprestada do nicho das startups, a Mirabilis pretende se constituir como espaço de conexão e troca de experiências entre seus integrantes e demais redes, de forma aberta e colaborativa, constituindo-se como um ponto de referência às unidades acadêmicas e administrativas da Uerj no tocante à “circulação científica”, na criação de propostas inovadoras e sustentáveis.

A atuação em rede não é mera retórica, mas sim parte fundante da Mirabilis. Isso porque, apesar de originalmente organizada pela Comuns, a Rede é fruto da contribuição de professores, técnicos e alunos, que compartilham seus projetos, materiais, experiências, dúvidas e aprendizados. Afinal, uma rede é um coletivo e só funciona quando seus integrantes ativamente a alimentam, conectados entre si em uma teia de trocas. E, a partir de entendimentos internos, em 2026, a Mirabilis passou a ser gerenciada pelo Laboratório de Tecnologias Educacionais Disruptivas (Lated), com sede no CAp-Uerj, coordenado pelo professor Waldiney Mello, dando continuidade ao projeto.

Vamos conversar sobre ciência?

Por que Mirabilis?

A marca Mirabilis é inspirada inicialmente na expressão latina annus mirabilis (pl. anni mirabiles), que significa ano maravilhoso, ano miraculoso ou ano incrível. É usada para fazer referência a anos em que houve grande desenvolvimento em algum assunto ou uma série de eventos muito significativos e impactantes.

Pesquisas sobre nomes similares mostraram que Mirabilis também é um arbusto de folhagem perene, muito ramificado, de raízes tuberosas e flores ornamentais, com altura de até 1,0 metro e formato irregular. As flores se assemelham a uma trombeta e podem ser encontradas em diversas cores.

Há ainda a “rete mirabile”, um complexo de finas artérias e veias interconectadas, formando uma rede de capilares sanguíneos que transporta substâncias vitais e troca calor com certos órgãos. O fluxo sanguíneo acontece em contracorrente, aumentando a eficiência das trocas gasosas e de calor. Em tubarões, golfinhos e pinguins, por exemplo, os capilares se comunicam em uma rede de trocas de calor para manter órgãos vitais em funcionamento mesmo no frio extremo. Na bexiga natatória de alguns peixes, a rede também permite a troca de gases que controlam a flutuabilidade desses animais.

Esperamos que a Rede Mirabilis ganhe capilaridade, se ramifique e faça florescer a circulação e troca científica na/com a sociedade.