Por Cynthia Duarte e Gabrielle Novello
A divulgação científica no Brasil ainda enfrenta desafios, como a falta de prioridade nas políticas públicas e o baixo investimento, além de falta de diálogo entre ciência e sociedade. Essa é a análise do físico Ildeu de Castro Moreira, presidente de honra da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e uma das figuras mais respeitadas quando o tema é popularização da ciência, tendo recebido, entre outras honrarias, o Prêmio José Reis de Divulgação Científica e Tecnológica do CNPq, em 2013.
Ildeu foi um dos convidados do programa Uerj Entrevista, da Rádio Uerj, e, na conversa, destacou o papel essencial das universidades na aproximação entre conhecimento e população, afirmando que muitas instituições de ensino superior ainda não perceberam a importância estratégica da divulgação científica. “A universidade está na interface entre o conhecimento, a educação, a ciência e a sociedade”, afirmou.
Universidades e o desafio da aproximação com a sociedade
Questionado sobre como diminuir a distância entre universidade e sociedade, foi direto: “A gente tem de ir onde as pessoas estão”. Para o pesquisador, é fundamental que as discussões sobre ciência cheguem a bairros periféricos, sindicatos, organizações populares e comunidades.
Mais do que informar, o objetivo central da divulgação científica, de acordo com Ildeu, deve ser o de empoderar a população. “É importante que as pessoas tenham consciência de que fazem parte do processo de construção da ciência no seu sentido mais amplo”, defendeu.
Desconhecimento sobre ciência e confiança nos cientistas
O pesquisador também ressaltou que, embora os brasileiros demonstrem grande interesse por Ciência e Tecnologia – conforme mostram pesquisas de percepção pública realizadas desde 2005 -, esse interesse não se reflete em conhecimento. “Há um desconhecimento grande sobre como a ciência funciona, sobre a própria ciência brasileira. Isso indica a importância de melhorarmos muito a educação científica nas escolas e também fazermos uma divulgação científica mais ampla e de qualidade”.
Outro ponto levantado durante a entrevista é o fato de os cientistas estarem entre os profissionais em quem os brasileiros mais confiam. Além disso, há uma percepção geral de que o Estado deve aumentar os investimentos em Ciência e Tecnologia.
A 5ª Conferência de CT&I e o papel da participação social
Ildeu também comentou sobre sua atuação na SBPC, como presidente de 2017–2021 e presidente de honra, e sua participação na comissão de Sistematização e Documentação da 5ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, realizada em 2024, em Brasília. Ele destacou que os debates e propostas discutidos durante o evento são fundamentais para a construção de um Plano Nacional de CT&I.
Apesar da relevância da conferência, Ildeu fez um alerta sobre a baixa participação popular nesse tipo de discussão: “A nossa democracia é muito formal, a participação real da população brasileira é muito pequena, exceto nos momentos eleitorais”.
Para ele, promover uma divulgação científica que dialogue com a realidade das pessoas é essencial para o fortalecimento da cidadania. “As pessoas precisam compreender como a ciência funciona para poder exercer melhor seus direitos, defender suas causas e buscar melhor qualidade de vida. A ciência e a tecnologia estão presentes em todos os aspectos do cotidiano”, concluiu.
Confira a entrevista completa no canal da Rádio Uerj no YouTube, episódio Desafios da divulgação científica e resultados da 5ª Conferência de CT&I, nas principais plataformas de podcast e também na obra “Uerj com RJ 2024 – Ciência, tecnologia e inovação: propostas para o desenvolvimento fluminense”, disponível para download gratuito no site do evento Uerj com RJ.